Um marco inicial: saúde mental, Perez Hilton, live stream e um mundo caótico

Não gostaria de começar este artigo sendo clichê, dizendo: “precisamos nos cuidar”, “saúde mental é importante”, “o mundo está caótico”, mas talvez essas fossem palavras sábias para iniciar um artigo nesta semana. Começo, então, dizendo tudo isso e trago perguntas: por que falamos tanto de saúde mental? Por que estamos todos nos tratando, nos medicando, buscando uma vida saudável e parece que só pioramos? Queria trazer essas respostas neste artigo que escrevo, mas sinto decepcionar você: não vou conseguir desta vez. No máximo, uma reflexão (vou dar o meu melhor, prometo).

O fato é: esta semana começa com o escândalo de saúde mental envolvendo um blogueiro americano famoso, Perez Hilton. Caso você não conheça o caso, já aviso: é pesado e pode conter gatilhos. Abrir uma live e se cortar na frente de milhares de pessoas é um aviso gritante de que estamos indo muito mal como sociedade. Não pela ação em si (que já é bastante chocante), mas por observar o quanto isso circulou nas redes sociais, o quanto foi republicado, pesquisado e até comercializado (sim, pessoas querendo vender o conteúdo na íntegra na internet).

Não vou mentir, me deparei com uma imagem da cena (digna dos piores filmes de terror que já vi na vida), o que foi suficiente para me engatilhar e escrever este artigo. A plataforma onde esse show de horrores foi exibido é o TikTok Live. Em reportagens apuradas pelo The Guardian e People, “milhares de pessoas assistiam”, em tempo real, à live do blogueiro. Além disso, segundo apurado pelo The Guardian, usuários relataram que a live permaneceu ativa por 30 minutos, o que contradiz o próprio TikTok, que diz que “a transmissão foi identificada e interrompida em cerca de 15 minutos”, em resposta publicada pelo The Sun.

Embora esse não seja o tema principal deste artigo, achei importante falar a respeito. Quero realmente falar sobre o que consumimos e como isso pode impactar a nossa saúde mental. Existe um estudo científico muito interessante sobre esse tema, que aborda, de forma prática, nossa relação com live stream e o efeito benéfico ou prejudicial que isso pode ter para nossa saúde mental.

O estudo foi feito com centenas de usuários da Twitch.tv. O artigo é o seguinte: Lee YH, Yuan CW, Wohn DY. How Video Streamers’ Mental Health Disclosures Affect Viewers’ Risk Perceptions. Health Commun. 2021 Dec;36(14):1931-1941. doi: 10.1080/10410236.2020.1808405. Epub 2020 Aug 26. PMID: 32842773. Vale a leitura (a quem interessar).

Basicamente, live stream pode possuir muitos efeitos benéficos para a saúde mental, mas quando utilizada para reforçar a interação social dentro de uma comunidade (interações em chat, comentários, conteúdo para membros etc.). A comunidade tem o papel mais importante, mais importante até do que o próprio streamer. O maior efeito benéfico foi observado em pessoas que já possuem boas interações sociais fora das redes sociais.

Em contrapartida, um efeito prejudicial foi notado em pessoas que estão passando por um “deslocamento social”, em que a pessoa não possui interações reais, ou as interações através das redes sociais substituem as interações reais. O estudo comenta que esse tipo de conteúdo de live stream tem aumentado e pode ser o futuro da comunicação digital, substituindo as mídias tradicionais que conhecemos.

Dito isso, quero deixar registrada a importância de termos uma vida fora das mídias sociais. Embora seja importante ressaltar isso, quero sublinhar algo ainda mais relevante: a responsabilidade que essas plataformas de live stream precisam ter quanto ao conteúdo que proporcionam aos seus usuários e o malefício do algoritmo.

Não há dúvidas de que o que aconteceu com Perez Hilton não foi a primeira vez, e nem será a última (sabemos que, se atraiu milhares de pessoas, isso pode virar “moda”). Quantas pessoas que assistiram a isso terão seus algoritmos “contaminados” por esse tipo de conteúdo?

O mundo está caótico, e precisamos nos proteger, responsabilizar as plataformas que utilizamos e, mais do que isso, denunciar! No caso do Perez Hilton, usuários denunciaram a live e acionaram os serviços de emergência do país, e isso pode ter salvado a vida dele. Posso encerrar esse tópico com a mensagem de que nem tudo está perdido: existem pessoas vigilantes, atentas e “acordadas” para a realidade… só precisamos ser maioria.

Finalizo, então, este artigo voltando às questões iniciais. No meu ponto de vista, é primordial buscarmos auxílio profissional para lidarmos com tudo isso, mas não iremos obter muitos resultados se as plataformas às quais estamos conectados diariamente nos expõem a esse tipo de conteúdo danoso, que nos afasta do mundo real e nos conecta com o pior que têm a oferecer. Nossa mente não descansa e responde intensamente a esses estímulos agressivos.

Por isso, a mensagem final (e prometo que será, de fato, a final) é para que vocês se cuidem e se desconectem um pouco. Cuidem do algoritmo de vocês como quem cuida da comida que come, pois, atualmente, ele é o seu bem mais precioso na vida on-line.

Obrigado pelo seu tempo. Obrigado por estar aqui comigo.

Referências abaixo:

Social Live-Streaming Use & Well-being: Examining Participation, Financial Commitment, Social Capital, and Psychological Well-being on Twitch.tv

‘Disturbing’: TikTok faces criticism after Perez Hilton livestreams self-harm

FAILED TO ACT TikTok under fire after disturbing Perez Hilton ‘self-harm’ livestream stayed live for 15 MINS with 1,000s able to watch

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