Minha história com a Britney Spears começa há 20 anos. Eu era um adolescente vivendo todas as minhas questões e acabei encontrando um ícone pop transgressor, que lutava por seus direitos e por respeito. Pensei então: “Preciso realmente ouvir as músicas dela”. Quando ouvi “Overprotected” pela primeira vez, senti uma identificação quase imediata. Bizarro! “O que eu vou fazer da minha vida?”, “Eu preciso de tempo!”, “Eu preciso de espaço!”. Quantas e quantas vezes isso ecoou (e ecoa até hoje) na minha mente.
Nesse momento, passei de alguém que gostava de Britney Spears para alguém que via em Britney e em suas músicas uma forma de se expressar, de se libertar e de se impor. Assim foi por 20 anos, e creio que será por toda a minha vida. Mas isso não é sobre mim. Que tal falarmos sobre ela, transtorno de estresse pós-traumático e desabafarmos um pouco sobre nossas frustrações juntos?!
Em uma carta aberta para seus seguidores no X (eu chamo de Twitter ainda, desculpa), Britney Spears relata mais abusos e traumas que viveu durante 15 anos. Além disso, volta a culpar o governo americano por ter permitido que todos esses abusos acontecessem e faz uma forte denúncia a respeito de um sistema falho, que mais prejudicou sua vida do que ajudou. Entre relatos das privações que sofreu, Britney declara ter um trauma em relação à indústria do entretenimento e diz: “Eu não quero mais estar na indústria”. Acrescenta: “Só de pensar na indústria…”. Ao não terminar a sentença, deixa claro que isso ainda lhe gera um enorme desconforto psicológico.
É compreensível: a indústria do entretenimento sugou até a última gota de sua capacidade artística. Em determinado momento, ela diz ter passado por uma “lavagem cerebral” para continuar trabalhando. Como fã, não há julgamento; há o desejo de que ela encontre a paz e a felicidade que merece. Arrisco dizer que essa é a carta aberta mais emocionante de Britney desde o lançamento do livro “The Woman in Me”. Recomendo a leitura de ambos.
A semana começa com uma live de Jayden (filho mais novo de Britney), dando a entender que a cantora poderia voltar à indústria do entretenimento. Esperança, animação e ansiedade para, enfim, numa sexta-feira, amargar o sabor de um desabafo dolorido e sentimental. Uma verdadeira montanha-russa de sentimentos! É triste e um tanto decepcionante. Saber que não vou a um show da minha cantora favorita me deixa meio chateado (muito chateado).
Lutamos para que ela se libertasse da tutela e para que, enfim, pudesse viver o que sempre quis. Bom, ela não queria o mesmo que a gente. Amar é respeitar as escolhas do outro e apoiar. Quanto às nossas frustrações? Aprendemos a lidar com elas e, sem julgamentos, cada um lida como pode e consegue.
Britney relata que possui traumas, mas ainda não é possível afirmar que sofra de transtorno pós-traumático. Muitas vezes, eu me pego pensando: “Ela tem que se tratar”. Mas qual seria o tratamento? Bom, alquimista que sou (e profissional farmacêutico), fui procurar saber e vou deixar aqui para quem se interessar.
O transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), nome oficial da condição, segundo a Revista Brasileira de Psiquiatria, é a condição que pode surgir depois que uma pessoa vive ou testemunha um evento extremamente ameaçador — violência, guerra, abuso, acidente grave, desastre. Os sintomas centrais são: reviver o evento contra a vontade (flashbacks, pesadelos), evitar tudo que lembra o trauma, alterações negativas de humor e pensamento, e ficar em estado de alerta constante (hipervigilância, sobressalto fácil). E sinto dizer: não existe um tratamento específico ou 100% eficaz. O que existe são terapias que podem ajudar a amenizar os sintomas e reduzir o impacto dos gatilhos relacionados a um trauma. Estudos indicam que a psicoterapia focada no trauma (que inclui EMDR e terapia de exposição) é hoje considerada o tratamento de primeira linha. Em outras palavras, falar sobre isso em um ambiente seguro pode ajudar na recuperação. Além disso, não há um tratamento medicamentoso universalmente eficaz; existe uma combinação de abordagens que podem ou não melhorar a condição do paciente. Em um artigo publicado pelo Frontiers, diz que cada vez mais o tratamento eficaz não é “uma fórmula única”, e sim adaptar a abordagem à pessoa.
Um dos grandes problemas no tratamento do TEPT é a desistência da terapia antes do tempo necessário. Estudos demonstram que terapias intensivas de oito dias têm apresentado bons resultados em comparação com terapias convencionais realizadas ao longo de meses (com sessões uma vez por semana). Essa pode ser uma forma de alcançar eficácia semelhante à do tratamento convencional (cerca de 70%), mas em menos tempo.
Meu questionamento aqui é o seguinte: o que fazer quando o trauma é o próprio tratamento, imposto de forma incorreta e agressiva durante a tutela? O que fazer quando o trauma é justamente estar exposta e frágil diante disso? É algo que não podemos responder, infelizmente.
O que eu desejo agora, de verdade, é que ela fique bem e seja feliz. Vamos diminuir as expectativas e não criar teorias. Vamos ficar com o agora, pois o agora é o que existe. E, nesse agora, ela está aposentada, tentando se curar de suas dores.
Britney, agora falo com você. Sei que você nunca vai ler isso, mas quero que saiba que a sua música ajudou a curar um coração muito machucado pelo preconceito, pela rejeição e pelo medo. Fico verdadeiramente triste por você, mesmo que não me conheça, e torço para que se recupere e tenha uma vida plena. Obrigado por tudo.
Obrigado pelo seu tempo. Obrigado por estar aqui comigo. 🙂
Referências:
Editorial: Advances in understanding and treating post-traumatic stress disorder

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